Breve comentário sobre os temas Fé e Obra presente na Carta de Tiago
24/09/2021 10:05 em Teologia

 

Breve comentário sobre os temas Fé e Obra presente na Carta de Tiago

 

Cônego Alex Dominicini, ocrl[i]

 

A Carta e/ou Epístola de Tiago é uma obra literária pastoral que é endereçada às comunidades da Diáspora, ou seja, o povo Hebreu disperso a partir do exílio na Babilônia no século VI a.C. e, especialmente, depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C. mas também com alcance para todas às pessoas espalhadas pelo mundo inteiro. Tiago ao escrever tem a preocupação de resolver conflitos dentro das comunidades, dentre eles, dos ricos e pobres, da ambição em ocupar as posições de privilégios, etc.

Tiago apresenta-nos dois temas centrais: fé e obra. Uma fé demonstrada concretamente no amor e caridade, arraigada na justiça. Fé que procede de Deus e suscita no homem as virtudes divinas. O autor nos apresenta um discurso de fé que podemos encontrar também no evangelho de São Mateus no qual ensina-nos a amar o próximo principalmente os inimigos. “Ouvistes o que foi dito: amarás teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,43-44). A máxima do evangelho fundamenta-se no mandamento do amor, e, onde há amor deve, por excelência, existir ações de caridade, pois, “onde a amor e a caridade Deus aí está”. A fé precisa estar intimamente ligada às obras, ações concretas que traduzem na prática todo esse amor e caridade, se não for assim a fé não é genuína.

Tiago apresenta-nos esta relação entre fé e obra de tal maneira que negar uma consiste em negar a outra. Para o autor não existe dissociação de fé e obra. Tiago defende uma fé que se envolva, participativa, comprometida com a sua comunidade, com as demandas da comunidade e do mundo, principalmente como os pobres.

Percebe-se que os destinatários vários da epístola de Tiago são pessoas que têm uma fé meramente professada, ilustrativa, não uma fé sólida que provém desta relação com as obras. Thiago diz: “Eles dizem que tem fé”. Podemos observar aqui que ele não afirma que aqueles têm fé, mais sim que dizem ter fé. Também em 1Jo 4,20 é dito que: “Se alguém disser amo a Deus e odiar o seu irmão é mentiroso”.

De fato, Tiago afirma que o que pode salvar o homem é a fé, porém, não qualquer fé, ou apenas uma fé doutrinária, ilustrativa, da boca para fora, mas uma fé que procede de Deus. Se a fé procede de Deus então ela suscita no coração de todos os filhos e filhas este desejo de salvação. Um desejo que nos move para fora de nós mesmos e nos direciona ao encontro do “outro” em suas mais diversas necessidades. A fé que procede de Deus não nos permite fazer acepções de pessoas, não nos permite realizarmos obras de injustiça e maldade, mas produzir ações/obras que crescem, florescem e frutificam. A fé que vem de Deus nos permite isto porque é a fé autêntica do Espírito, o mesmo Espírito de Jesus Cristo habita em nós, e, por este Espírito nos é dado a filiação, e, por esta filiação nos é dado condições autênticas para vivermos essa fé, enraizada, frutífera.

Assim, podemos concluir que as obras são frutos da fé, pois “a fé sem obra é morta”. Não frutos nossos, mas frutos do Espírito Santo que age em nós fazendo-nos ser salvos pela graça, e colaborarmos na salvação uns dos outros mediante a fé. Fé essa que traduz em obras a manifestação visível do amor de Deus em nós, ou seja, a fé procede de Deus e pulsa em nossos corações e suscita no homem as virtudes divinas que é manifestada exteriormente, isto é, naquilo que chamamos de obras/ações.

  

  

Referência:

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém - Nova edição, revista e ampliada 3. imp. São Paulo: Paulus, 2004. 2206p.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada Ave-Maria, 141.ed. São Paulo: Editora Ave Maria, 1959, (impressão 2001). 1632p.

BÍBLIA. Português. Apresentação. In: Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Nova Tradução na Linguagem de Hoje. São Paulo: Paulinas Editora, 2005. 1464p.

  

 



[i] Religioso na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho da Congregação do Santíssimo Salvador Lateranense. Graduado em Filosofia (Licenciatura) pelo Centro Universitário Claretiano. Cursando Bacharel em Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

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